A história do Paraná
Um encontro inesperado
Em julho de 2023, eu tinha uma semana de trabalho programada no estado do Paraná. Eu e meu colega de trabalho, Renato, participaríamos da UNIFRANGO, evento realizado entre os dias 18 e 20 de julho, no Vivaro Centro de Eventos, em Maringá.
Nossa programação era bastante corrida. No dia 19, após o almoço, precisaríamos seguir viagem até Marechal Cândido Rondon, onde participaríamos do Dia do Suinocultor, no dia seguinte.
Mas aquela viagem acabaria marcando minha vida de uma forma que eu jamais poderia imaginar.
No dia 18 de julho, pouco antes do almoço, encontramos um cachorro deitado próximo ao carro em que estávamos. Era um cachorro magro, de coleira, aparentemente bastante debilitado.
Renato, além de meu chefe e colega de trabalho, é cachorreiro. Por onde viaja, costuma levar no carro um saco de ração e água, justamente para ajudar os animais que encontra pelas estradas e cidades.
Naquele dia, não foi diferente.
Deixamos um bom pote de ração e água fresca ao lado daquele cachorro e fomos almoçar. No final do dia, ao percebermos que ele havia comido, enchemos novamente os potes antes de seguir para o hotel.
Na manhã seguinte, sabíamos que teríamos de deixar Maringá após o almoço. Antes de partir, procuramos o cachorro, colocamos mais ração e água e seguimos nossa viagem para Marechal Cândido Rondon.
Naquele momento, eu ainda não sabia, mas aquela não seria nossa última visita àquele lugar.
A decisão de voltar
Durante toda a manhã do dia 20 de julho, eu e Renato continuávamos lembrando daquele cachorro.
Conversávamos sobre seu estado, sua magreza e, principalmente, sobre aquela coleira. Será que ele realmente estava abandonado? Será que tinha algum dono?
Até que uma pergunta me veio à cabeça.
— Renato, para voltar, temos que passar por Maringá novamente?
Quando ele respondeu que sim, não tive dúvidas:
— Então vamos passar lá onde aquele cachorro estava. Se ele ainda estiver por lá, eu levo ele embora comigo.
Não sei se aquele cachorro já havia pertencido a alguém. Mas os sinais de abandono eram difíceis de ignorar.
Ele estava magro, tinha machucados, carrapatos e uma coleira velha, suja e desgastada, que havia deixado marcas em seu corpo.
Não sabíamos o que ele tinha vivido, havia quanto tempo estava naquela situação ou como tinha chegado até ali.
Só sabíamos que não queríamos deixá-lo para trás.
Nem esperamos o encerramento do evento em Marechal Cândido Rondon. Iniciamos nossa viagem de volta e chegamos a Maringá por volta das nove horas da noite.
E lá estava ele.
No mesmo lugar. Praticamente do mesmo jeito.
Naquele momento, tive a certeza de que ele voltaria conosco.
Foi assim que conheci o Paraná.
Uma nova vida
Depois do resgate em Maringá e de mais de oito longas horas de viagem de carro, o Paraná chegou à minha casa na madrugada do dia 21 de julho de 2023.
Seu nome foi uma homenagem ao estado onde nossos caminhos se cruzaram.
Eu não sabia sua idade verdadeira, mas, pelas condições em que se encontrava, acredito que já fosse um senhor de pelo menos dez anos.
O Paraná tinha uma personalidade forte.
Chegou a me morder algumas vezes, e ainda carrego cicatrizes dessas mordidas. Mas nunca o culpei por isso. Eu não fazia ideia dos traumas que aquele cachorro poderia ter enfrentado ao longo da vida.
Hoje, essas cicatrizes também são lembranças que tenho dele.
Seus dentes estavam quebrados, havia um calo ósseo em uma das patas e várias cicatrizes pelo corpo. Não sei se aquelas marcas eram resultado de brigas, de algum atropelamento ou até de maus-tratos.
E talvez nunca saiba.
O que eu sabia era que, dali em diante, queria oferecer a ele uma vida diferente.
O Paraná chegou magro, pesando pouco mais de seis quilos, e com vários problemas de saúde.
Ele chegou com doença do carrapato. No final daquele mesmo ano, surgiu uma hérnia perineal, e os exames pré-operatórios revelaram também problemas cardíacos.
A hérnia exigiu duas cirurgias. Cerca de um ano após a primeira, ela voltou, e ele precisou ser operado novamente.
Por causa dessa condição, sua alimentação também exigia cuidados especiais. Ele precisava comer comida preparada, pois a hérnia dificultava o consumo de ração. Além disso, recebia laxante diariamente, em quantidade controlada, para reduzir o risco de uma nova hérnia.
Havia horários para a alimentação, passeios, medicamentos e outros cuidados.
Mas o maior desafio estava relacionado ao coração.
O Paraná precisava tomar várias medicações cardíacas. Principalmente na fase final de sua vida, quando passou a apresentar episódios de crise, o tratamento se tornou cada vez mais complexo.
Alguns medicamentos tinham doses diferentes dependendo do horário. Outros mudavam de frequência ao longo dos dias ou das semanas. E, conforme sua condição clínica, as orientações precisavam ser ajustadas.
Era uma rotina que exigia muita atenção, organização e carinho.
Como nasceu o Rotina Pet
Por conta do meu trabalho, viajo constantemente e nem sempre conseguia estar em casa para ajudar nos cuidados com o Paraná.
Grande parte dessa responsabilidade ficava com meu pai, Orlando.
Ele era quem estava presente no dia a dia, administrando os medicamentos e seguindo as orientações necessárias para cuidar do Paraná.
E eu precisava encontrar uma maneira de ajudá-lo, mesmo estando longe.
No início, comecei a montar planilhas com os nomes dos medicamentos, doses e horários. Imprimia essas folhas para que meu pai pudesse marcar, com um simples check, cada medicamento administrado.
Era uma solução simples, mas que já ajudava bastante.
Com o tempo, as planilhas foram ficando mais elaboradas. Depois, passei a utilizar versões automatizadas no celular, tentando facilitar ainda mais a rotina.
Cada nova necessidade trazia uma ideia de melhoria.
Eu queria que meu pai pudesse olhar para uma tela e saber exatamente o que precisava fazer, em qual horário e com qual medicamento, sem ter que interpretar uma prescrição a cada administração.
Também queria que fosse fácil registrar o que já havia sido feito e identificar o que ainda estava pendente.
Foi assim, aos poucos, que uma necessidade pessoal começou a se transformar em algo maior.
Como médico-veterinário, percebi que a dificuldade que enfrentávamos em casa poderia fazer parte da rotina de muitas outras famílias.
Afinal, uma coisa é receber a prescrição durante a consulta. Outra é conseguir organizar todos aqueles cuidados em casa, principalmente quando existem vários medicamentos, horários diferentes e mais de uma pessoa responsável pelo animal.
O que começou com uma planilha impressa para ajudar meu pai a cuidar do Paraná evoluiu, passou por diferentes versões e acabou se transformando no Rotina Pet.
Um aplicativo criado para aproximar as orientações do médico-veterinário da rotina de quem cuida.
O propósito que continua
O Paraná faleceu no dia 27 de setembro de 2026.
Foram pouco mais de três anos ao nosso lado.
Às vezes penso em tudo o que ele pode ter vivido antes daquele encontro em Maringá. Nas dificuldades que enfrentou, nas marcas que carregava e nas coisas que nunca conseguiremos saber sobre seu passado.
Mas também penso na vida que ele teve depois que chegou à nossa casa.
Ele passou a ter horários para comer, passear e tomar seus medicamentos. Tinha um lugar para dormir, uma família que cuidava dele e, acima de tudo, pessoas que o amavam muito.
Gosto de acreditar que esses últimos três anos tenham sido um período mais tranquilo e feliz de sua vida.
O Paraná me deixou lembranças, saudades e algumas cicatrizes. Mas deixou também algo que eu jamais imaginaria naquele primeiro encontro: a inspiração para criar uma ferramenta que pudesse ajudar outras pessoas a cuidar dos seus animais.
O Rotina Pet nasceu da necessidade de cuidar do Paraná. Hoje, meu desejo é que ele também possa facilitar o cuidado de muitos outros pets e suas famílias.
Essa é a história do Paraná.
E é também a história de como nasceu o Rotina Pet.